domingo, novembro 26, 2006

Há dias que sinto as coisas assim...

ADEUS

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.


Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.


Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

2 comentários:

pinguim disse...

Foi com alguma emoção que reli este poema.
Foi com o envio destas palavras que um dia terminou a minha primeira relação.
Confesso que não achei o método o mais agradável...mas devo confessar que a escolha do poema foi apropriada para o momento.
obrigado por me teres recordado...

Anónimo disse...

Um diário não era aquele livrinho que escondíamos dos outros e que tinha até uma chave para que mais ninguém o pudesse ler? Hoje resolvi actualizar a leitura deste diário/blog/livro aberto e fiquei a saber mais do dono do que pelo próprio...