quinta-feira, setembro 27, 2007

Sexo oral

Primeiro a tua língua molha o meu
coração, num vagar de fera. Estendo
aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre
os copos que desaparecem. Não há mais
ninguém no bar cheio de gente. Abres-me agora os
pulmões, um para cada lado, e sopras. Respiras-
-me. O laser das tuas palavras rasga-me o lobo
frontal do cérebro. A tua boca abre-se e fecha-se,
fecha-se e abre-se, avançando
por dentro da minha cabeça. As minhas cidades
ruem como rios, correndo para o fundo dos teus olhos.
O tempo estilhaça-se no fogo
preso das nossas retinas. O empregado do bar
retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrina,
ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro,
abrindo e fechando as pernas
das palavras, estremecendo no suor dos
olhos abraçados, fazendo sexo
com a lava incandescente dessa revolução
imprevista a que damos o nome de amor.

Inês Pedrosa »» Egoísta, n.º 32 (Sexo) »» p. 8

2 comentários:

Paulo disse...

Por mim, "rouba" à vontade. Quanto ao teu "hoje", já tinha percebido por causa do tarot e das cartas macabras. Esqueci-me de acrescentar que apesar da violência do poema, não gosto nem aceito violência no sexo. Passo-me só de pensar em sangue. Mas o poema é muito clean, nesse aspecto. O que valorizo no texto é mesmo a intensidade do acto.

Paulo disse...

Mais :)
A passagem final é fabulosa: «a lava incandescente dessa revolução
imprevista a que damos o nome de amor.» Lindo, lindo.