sábado, setembro 22, 2007

Tu sabes que eu sei que tu não sabes que eu sei nada saber

Existem pessoas que, por mais que tentem, têm dificuldades constantes nos relacionamentos interpessoais. É minha opinião que a génese desse problema passa por não compreendermos e, por consequência, não resolvermos algumas das experiências traumáticas por que passámos nos tempos da infância ou da juventude. Essas experiências, por estarem mal resolvidas na nossa cabeça (ou sequer haver consciência que lá estão), deixam marcas latentes, condicionando, assim, o nosso comportamento no presente.

Seja por isso, ou por qualquer outra razão, o resultado acaba por ser sempre o mesmo, descuidamos o que de mais precioso possuímos: o eu e, consequentemente, os outros.

Obviamente que é bem mais fácil justificar aquilo que somos/fazemos hoje colocando a culpa em alguém ou algo exterior a nós. Mas isso não é a verdade. A razão de como somos e agimos está, na maior das vezes, dentro de nós e não no outro ou no que ele nos infligiu. É antes a maneira como resolvemos interiormente esse infligimento que nos constrói a personalidade e caracteriza o modo como lidamos com o outro.

Se fizermos uma auto-análise encontramos, quase sempre, a explicação do nosso eu de hoje, com algo que se passou lá atrás e reconhecer isso já é meio caminho andado para evoluirmos, para sermos pessoas melhores. Cabe-nos então a nós fazer essa viagem interior, descobrir as nossas forças e as nossas fraquezas para aperfeiçoarmos o que é bom e contrariarmos o que é mau em nós.

Não querendo armar-me em filósofo, até porque para isso já há um na família, o que referi assemelha-se com, recordem as aulas, nada mais que filosofia clássica: Gnothi Seauton! – do grego γνῶθι σεαυτόν, ou, em português, Conhece-te a ti mesmo!

Esta frase, inscrita no pórtico do templo de Apolo em Delfos, apresentada a Sócrates por seu amigo Querofonte aquando da sua passagem pelo oráculo (onde a pitonisa lhe revelou ser Sócrates o mais sábio entre os homens), acabaria por se tornar na pedra basilar do método socrático. Sócrates entendeu que o conhecimento do que nos rodeia não deve ser revelado a partir do exterior, mas sim ser revelado através da auto-descoberta do próprio individuo. E qual o seu método?

Num primeiro momento é irónico, questiona-nos, para que confrontemos as nossas próprias limitações face ao conhecimento que temos das coisas, do que julgamos saber. É aqui que chegamos, quase sempre, à humilde conclusão de só saber que nada sabemos!

Só depois, quando reconhecemos a nossa ignorância, quando tomamos consciência dos limites do nosso próprio saber e ao fazermos tábua rasa de tudo quanto julgávamos saber, é-nos permitido o segundo momento. Surge-nos então a grande libertação, chegamos ao momento da maiêutica, em que renascemos intelectualmente (maiêutica= parto), onde, partindo do nada que temos, além do nosso interior (o eu) e da vontade de procurar a verdade em nós, encontramos o conhecimento universal (o outro) e, com isso, o caminho do Bem – quem verdadeiramente procura o Bem, só pode viver segundo o Bem, dizia Sócrates.

Confesso que até eu estou um pouco baralhado mas, se ainda não desistiram da leitura deste post, tudo isto serve para vos dizer que é a partir do verdadeiro conhecimento do nosso eu que nos podemos depois entregar, de uma maneira honesta e sem preconceitos, à tarefa de conhecer o outro.

Por isso, caros leitores, antes de qualquer coisa, conheçam-se primeiro, cuidem primeiro de vocês, arrumem bem a vossa casa, façam primeiro a viagem interior pela descoberta maravilhosa que é encontrar-se a si mesmo e só depois estão prontos para visitar a casa do outro.

Pior é se, ao nos procurarmos, não gostarmos daquilo que vamos encontrar. Mas isso é conversa para outro post.

1 comentário:

Paulo disse...

Certeiro e perfeito o teu texto. A metáfora da casa dava pano para muitas discussões, como costumo dizer. Pessoas há que também olham e cultivam tanto o seu umbigo que não são capazes de perceber quanto magoam os outros. Mais, fecham tanto a casa que não são capazes de receber lá ninguém e quando a abrem, ficam-se pelo hall de entrada. Sabes o que acho mesmo: essas pessoas que tu-sabes-que-eu-sei-que-tu-não-sabes... podem ter passado um mau bocado, mas se elas próprias se assumissem e aceitassem como são tudo seria mais fácil. Resumindo: não se conhecem a elas próprias e muitas vezes nem tentar conhecer-se. Eu tenho alguns traumas da adolescência, pois tenho, mas acho que os resolvi bem. Pelo menos, deram-me a força suficiente para não me calar. Posso não gostar do que sou, de tudo o que sou, mas sou assim e pronto. Não adianta parar à espera que mude: o tempo passa, o mundo avança, e não se compadecem com receios de rugas e cabelos brancos.
E não desisti de ler o texto, não senhor. Concordo em tudo.