quarta-feira, fevereiro 06, 2008

400 anos

Padre António Vieira - Lisboa, 6 /02/1608 — Bahia, 17 /06/1697

O sermão de Santo António aos Peixes, tão actual nos dias de hoje e de sempre:

"A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. (...)
Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer. Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-a a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra."
Mais aqui.

4 comentários:

Einstein Halking disse...

Bêibér, brigadão pelos elogios e pela força! Vou adicioná-lo nos meus favoritos também, ok? Abração!

Paulo disse...

Gostei que te tivesses lembrado deste grande homem. Eu, agora, não me apetece falar de literatura...
Abraços

Graphic_Diary disse...

#E.H.
Ora essa, essas coisas não se agradecem, apreciam-se!
Um abraço e um "até já"

#Paulo
Espero que essa não vontade seja só preguiça e não um estado de espírito mais cabisbaixo!
Em qualquer dos casos, leva abraço cheio de força.

pinguim disse...

Já é tempo de se dar mais valor e "gastar" um pouco mais de tempo com os escritores portugueses dos séculos passados; e vá lá, que apesar de tudo, Vieira e Gil Vicente ainda vão sendo trazidos à memória, de quando em vez; outros ficam apenas na memória das obras que escreveram; já me congratulei pelo aparecimento de um texto com um poema de Sá de Miranda no blog do André Benjamim.
Abraço.