domingo, fevereiro 24, 2008

Mayra Andrade

Acabei de chegar de uma experiência fantástica. O concerto de Mayra Andrade, no Forúm Municipal Luísa Todi (Setúbal). Mal a conhecia, a primeira referência que tive foi pela pergunta de um amigo, dirigida a mim num tom incrédulo, 'Não conheces Mayra Andrade?!?'... (pausa para silêncio mortificador) e depois a minha resposta tímida 'Deveria?'
Segui o conselho e comecei a ouvi-la no youtube - gostei mas não fiquei rendido. Uma semana depois soube que a digressão dela passaria por Setúbal daí a umas três semanas. O tempo voou, chegámos ao dia do concerto, este sábado, e por não ter companhia acabei por não comprar bilhetes (cerca de 20 euros cada). Também não tinha ficado tão arrebatado que fosse ficar deprimido por não poder ir ver e ouvir alguém que pouco tinha ouvido. Paciência, pensei eu.
Hoje à tarde o meu mais que tudo ligou-me a dizer que tinha um presente para mim. Um amigo dele, que fazia algo no espetáculo aqui em Setúbal, ainda tinha dois bilhetes e não tinha a quem os dar. Ora para quem foram? Isso mesmo, aqui para o je. Como o mais que tudo preferiu ficar em casa, peguei na minha mãe e lá fomos ouvir a moça de Cabo-Verde. Ao lá chegar estranhei logo a coisa, era uma fila enorme de gente para comprar bilhetes, outra igual para entrar na sala, nunca tinha estado no Fórum assim completamente lotado - bem, excepto nas festas de Natal dos meus sobrinhos, com pais, avós, tios, primos e restantes familiares babados por verem os diabretes a personificar anjinhos, renas, estrelas e pinheirinhos, mas isso não conta. Indo ao que interessa, já sentadinho, preparei-me então para ouvir o que tinha assim de tão especial essa menina nascida em Cuba e criada na cidade da Praia. O processo de rendição começou logo, na segunda música já estava vencido e assim fiquei até ao final.
O calor na voz, a simpatia, a dança no corpo, enfim, tudo! O super-extra do concerto em Setúbal foi a acordeonista setubalense Celina Piedade. Ainda a assinalar José Luís Nascimento na bateria e percurssão, fiquei de olho nele desde logo e no solo que fez foi soberbo, de tirar o fôlego a qualquer um! Também apreciei muito a companhia da minha mãe que está sempre pronta para sair aqui com o filhote. Depois poder contribuir com algo para que ela se distraia, vê-la feliz e bem disposta, dá-me bastante prazer. Sei que ela gostou muito porque até fez um post sobre isto.
O único senão é o mesmo de sempre em qualquer espetáculo: o maldito hábito que as pessoas têm em bater palminhas pseudo ritmadas numa tentativa de acompanhar o compasso da música. Que raio de mania irritante! Se estivesse eu no palco mandava-os parar de imediato, como faz a Fátima C. Ferreira no Prós e Contras 'façam-me o favor de não bater palmas!'
Ficou-me uma história bonita, deixada por Mayra como introdução à música 'Comme S'il En Pleuvait', que fala de uma velha Sra. que vivia nas ruas da cidade da Praia. Todos os dias, quando pequena e a caminho da escola, Mayra passava por ela. Um dia a velha chamou-a e confidenciou-lhe: - Sabes... um dia eu já fui uma linda princesa como tu.
A letra dessa música, disse-nos Mayra, conta a história dessa mulher, hoje vagabunda, mas que nos seus tempos de nova tinha tudo: beleza, saúde, alegria, presentes, pretendentes lindos, tudo o que queria e sem qualquer dificuldade, como que se essas coisas caíssem do céu, lhe chovessem em cima. É um pensamento que tenho muitas vezes, quando vejo um vagabundo na rua... o que os fez chegar ali; como teria sido a sua vida em novos; posso ser eu ali daqui a uns anos? nunca se sabe as voltas que a vida nos dá... Deixo aqui o vídeo dessa interpretação, precisamente em Setúbal, com a interacção do público, depois de devidamente ensinado e instruído por esta menina fantástica que já é uma grande cantora.
Voltando à pergunta inicial, se já deveria ter conhecido Mayra Andrade, deveria!

Obrigado ao amigo que fez a pergunta incrédula, ao mais que tudo que pediu os bilhetes e ao amigo que os arranjou.

1 comentário:

pinguim disse...

Mayra Andrade tem uma voz bonita, nela estão os sons quentes da música cabo-verdeana, mas tem todo aquele "francês", que faz com que as caboverdenas como Cesária Évora sejam muito mais puras; mas é muito agradável a sua voz, concordo, e belas as suas melodias.
Abraço.