terça-feira, março 04, 2008

Bons e maus professores

Foto daqui.

Em Março do ano passado (flashback aqui) dei uma espreitadela no mundo do ensino, como professor, por contratação directa de escola.
Estava a terminar o meu estágio aqui, ao abrigo do programa PEPAP - mais uma aldrabice inventada por este governo para diminuir o número de desempregados licenciados das estatísticas do instituto de (des)emprego e encher de ilusões os mesmos. Na recta final já sabia que não ia ficar colocado no meu local de estágio apesar de fazer muita falta por lá. Mas o governo assim não o permitiu ao proibir a posterior contratação dos estagiários a toda e qualquer entidade que os acolheu. Assim comecei a procurar saídas para não voltar para o desemprego e desta feita sem subsídio.
Uma tarde, por mera curiosidade, inscrevi-me num software on-line de contratação de professores num site do Ministério da Educação. Informei-me, percebi como a coisa funcionava (estudei a legislação para perceber em que disciplinas eu tinha habilitação própria para a docência) e resolvi tentar a minha sorte, porque não? Não tinha nada a perder. Depois de preencher os meus dados, acabei por responder a uns quantos anúncios. Uma semana depois estava a ser chamado para ir dar aulas numa escola relativamente perto da minha casa e para começar na semana logo a seguir!!! Fiquei aterrorizado com a ideia e mais espantado ainda por ter sido o candidato com o melhor perfil para a coisa. Depois de me informar na DGAP de que não sofreria qualquer sanção por abandonar o estágio manhoso dado pelo governo, falei com o Conselho Directivo da ESE e dei de frosques. Nem acabei o estágio que duraria mais uns 15 dias, para não perder a oportunidade de ter trabalho pelo menos por mais quatro a cinco meses. Depois era também a concretização de um sonho que tinha em ser professor...
---------//---------
E lá fui então substituir um professor que esteve de baixa por uns seis meses. Esse professor tinha apenas, julgo que pelos anos de serviço, 16 horas lectivas e o melhor horário do grupo - tudo manhãs, duas tardes e uma sexta-feira praticamente livre (apenas os primeiros dois tempos da manhã). Sei que os professores têm de cumprir o resto do horário não lectivo com actividades, funções, outros cargos, seja lá o que for, mas nunca cheguei a saber como era no caso dele, aliás, eu acabei por perceber muito pouco destas coisas. À minha espera tinha duas turmas de 9.º ano, três turmas de Currículos Alternativos e uma hora não lectiva numa escola do primeiro ciclo, a fazer de baby-sitter de um 3.º ano composto por uns 20 pirralhos mal-educados - supostamente seria uma hora a preencher com trabalhos manuais.
Logo de início gostei, pareceu-me muito bem, achei fantástico. Tinha um horário muito ligeiro, estava habituado a trabalhar as normais 40 horas semanais e de repente, passei a ganhar mais e a trabalhar menos horas. Adorei a idéia!
Rapidamente percebi que afinal a coisa não era bem assim. Ainda dei muito no duro em casa, a pesquisar e a trabalhar nas matérias a dar aos alunos que me calharam. Gastei os meus recursos caseiros, papel, tinteiros, materiais para as actividades, fui um dia de propósito a um único fornecedor que encontrei em Lisboa para comprar - do meu próprio bolso - matéria prima para os trabalhos a fazer com eles, etc. Tudo para oferecer algo interessante e diferente para aqueles miúdos.
Houve muitas alturas em que senti não estar à altura da aventura. Nos primeiros dias, de cada vez que entrava numa sala e tinha 60 olhos virados para mim à espera que eu começasse a falar, só me apetecia era fugir dali para fora. De manhã, assim que chegava à escola, dava-me a volta ao estômago e corria para a casa de banho antes do início das aulas. Um suplício (mais um flashback aqui)!
Tive a sorte de já conhecer algumas professoras que estavam nessa e noutra escola, amigas de outras andanças, que me apoiaram muito, deram dicas, sugestões, ensinaram-me alguns truques, além das outras que conheci depois por lá que também me receberam muito bem. Depois também porque os amigos, a família, o mais que tudo, todos, acreditaram nas minhas capacidades, isso transmitiu-me muita força e coragem. Descontraí, com o tempo ganhei calo, conheci melhor os miúdos e acabei por dar-me muito bem com eles.
---------//---------
Depois de ter consultado as espectativas dos alunos face à oportunidade de um novo professor, resolvi não cumprir com o programa estipulado pelo meu antecessor. Antes meti-os a fazer coisas que realmente gostavam. Dentro das várias opções que lhes apresentei, escolheu-se as que juntaram maior consenso entre todos - os pobres já iam no terceiro ano consecutivo a fazer caixas em madeira! Para me sentir à vontade naquilo que lhes poderia ensinar, fui buscar aquilo que sabia bem dentro da minha área de conhecimento, apliquei o que era exigido pelo programa da disciplina (técnicas, ferramentas, materiais, etc.) e encontrei o meu rumo. Na turma de Oficina de Madeiras ensinei a técnica de Xilogravura e dei-lhes tema livre para fazerem o seu trabalho. Na segunda turma, de Oficina Tecnológica, ensinei a técnica de Serigrafia e aprenderam a serigrafar t-shirts ainda que de um modo muito tosco e tradicional, por falta de recursos da escola. Tinha estas duas turmas ainda na disciplina de "Área de Projecto". Aí resolvi juntá-los em grupos e propus-lhes que criassem uma empresa, escolhesem um produto ou serviço a produzir, vissem a concorrência e depois construíssem toda a imagem corporativa da empresa (logotipo, papel de carta, envelope, cartões de visita, imagem do produto/serviço a prestar e houve um grupo que até site resolveu fazer por auto recriação). Adoraram - o trabalho anterior tinha sido a criação de folhas de cartolina com as descrições dos vários elementos da tabela periódica para a professora de Ciências. Não desfazendo a importância da Química, eles simpatizaram muito mais com a criatividade que este trabalho lhes proporcionou.
No final do ano lectivo fui um dos poucos professores convidados a estar presente no jantar de final do ano numa das turmas e no baile de finalistas do 9.º ano(!?!), organizado pela outra turma. Nesta última usaram a técnica serigráfica que lhes ensinei para escreverem nas faixas de finalistas - sinal que retiveram alguma coisa do que lhes ensinei.
---------//---------
Desta minha curta experiência posso permitir-me dizer, com algum conhecimento de causa, que o que este Governo anda a fazer da educação a favor da estatística é vergonhoso: passar alunos, só porque sim, porque interessam aos números a apresentar à U.E. é comprometer o futuro do nosso país. Foi a idéia geral, talvez errada, com que fiquei do actual processo de avaliação do aluno.
A isto junta-se o ataque constante aos professores, enchê-los de papéis e burocracias, obrigá-los a salvar alunos que não querem saber um cu da escola. Como referi calhou-me também três turmas, média de três alunos cada, dos chamados 'Currículos Alternativos'. Basicamente estes alunos eram uns gandulos, uns preguiçosos que não queriam fazer nada e que só estavam na escola porque eram obrigados a isso. Estavam a deixar passar o tempo até atingirem a idade em que já não seriam obrigados a estar na escola - depois mais tarde, daqui a uns anos, sempre poderão frequentar o famoso programa 'Novas Oportunidades' (mais uma ideia deste governo) que lhes dará equivalência ao 9.º ano. Salvé, Salvé, Aleluia!
Alguns destes miúdos e miúdas tinham ligeiros déficits de aprendizagem, atenção e compreensão, mas a maioria deles a causa era pura preguiça mental. Ainda assim a escola, ou seja, os professores, davam tudo para fazer algo deles e alguns, como no meu caso, sem qualquer tipo de preparação pedagógica ou apoio psicológico para lidar com casos assim tão complicados.
Nas reuniões de avaliação arranjavam-se todos os estratagemas para que os alunos, de qualquer turma, mesmo sem estarem nos Currículos Alternativos, não tivessem avaliação negativa. Descobri coisas como as aulas de substituição, planos de recuperação, estudo acompanhado, eu sei lá... foi das coisas que mais me deixaram indignado. A culpa do insucesso dos alunos recai toda sobre o professor, sobre o sistema, a chuva ou o sol, mas nunca sobre a preguiça e falta de interesse da pobre e inocente criança. Revoltou-me tanto essa realidade, tão distante dos meus anos de escola onde se avaliava quem se dedicava aos estudos e quem não queria saber um boi da escola era justamente reprovado.
O mote hoje em dia é passar toda a gente, baixar cada vez mais os padrões de exigência e de aquisição dos conhecimentos, se estão lá na cabecinha deles é o de menor importância. O que interessa é a estatística revelar que 100% da população portuguesa possui a escolaridade mínima obrigatória. No futuro próximo teremos uma população activa que frequentou, no mínimo, a escolaridade obrigatória e mal sabe escrever o nome - passo a não-tão-exagerada-quanto isso-hipérbole... Isso assusta-me, confesso.
---------//---------
Nos intervalos passava a maior parte do tempo na agora extinta sala de fumo, onde estavam os professores que melhor simpatia e boa onda me transmitiram e depois, nessa altura, eu ainda fumava. Com a convivência acabei por perceber também que o professor que eu estava a substituir tinha umas quantas inimizades porque, ao que parece, ele era o típico baldas, talvez parecido com este género, não sei... maus professores existem, é por eles que agora todos estão a pagar pelo tratamento e perseguição do ministério. Acabei por saber também que o real motivo da sua baixa era para, pasme-se, terminar um projecto pessoal de grande envergadura e que lhe exigia uma dedicação a tempo inteiro. Acabei por tomar conhecimento dessa verdade pouco tempo depois de estar a ocupar o seu lugar, por meio de conhecimentos comuns entre nós - Setúbal é uma cidade muito pequena nestas coisas. Rapidamente ganhei a simpatia de muitos colegas, muito provavelmente por ser o oposto do meu antecessor. Fui convidado para almoços, uma sardinhada na casa de um, caracoladas, etc., só não fui a mais coisas por ser tímido e sentir-me pouco à vontade entre 'estranhos'. Durante o tempo que estive nessa escola, sempre me considerei um outsider, não me sentia um professor como eles, eu estava de passagem, a experimentar a coisa. Estranhava tratar por tu professores que podiam muito bem ter sido os meus; estranhava as auxiliares a tratarem-me por Sr. Professor; estranhava a simpatia de todos os membros do Conselho Executivo (nos meus anos de aluno era a figura tenebrosa do Conselho Directivo) e da Secretaria. Entrei num mundo que durante muitos anos tinha sido envolto em misticismo e grande respeito - quem não se lembra de não poder entrar na sala dos professores, de ter de ficar à porta à espera que o professor com quem queríamos falar saísse, ou que a 'sra. contínua' fosse simpática o suficiente e o chamasse para que viesse até à porta? De repente eu estava lá dentro, era um deles, descobria com prazer o que afinal eles falavam dentro da 'sala oval'... ri muito, divirti-me e guardo com um sorriso essa experiência.
---------//---------
Por ser dos poucos professores com conhecimentos de informática, ao fim de um mês na escola fui escalonado para fazer parte da equipa das PAEB (Provas de Aferição do Ensino Básico - flashback aqui), como técnico de apoio informático. A minha escola, por ser sede de agrupamento, era Unidade de Aferição, ou seja, iria recolher e gerir todas as provas de todas as escolas do Agrupamento (cerca de 6 mil provas dos 4.º e 6.º anos de escolaridade). Aceitei, sem saber muito bem o que pretendiam de mim. Em troca pedi só que me libertassem dos pirralhos mal educados do primeiro ciclo - as quatro vezes que lá fui senti-me completamente de rastos e impotente face a tanta criança insolente, desisti delas, sem qualquer remorso! Com a minha entrada na equipa das PAEB, das 16 horas semanais passei para o dobro num abrir e fechar de olhos - dias houve em que saíamos à meia noite da escola para conseguir ter as coisas exigidas pelo ministério terminadas. Horas essas que não eram pagas, nem a mim, nem a ninguém. Mais uma pérola do Ministério. O que nos valeu a todos nós professores, aos alunos, ao processo e principalmente à Ministra, foi o espírito de equipa, o bom humor e desportivismo com que encarámos todo este trabalho extra. Foram os bons professores - nas equipas de aferição, os avaliadores das provas, os que coordenaram os avaliadores, os que supervisionaram as turmas durante as provas, etc. - que tornaram possível este mega projecto de aferição dos alunos. Ninguém ganhou mais dinheiro com isto, a não ser o Ministério que poupou imenso nos recursos ao impôr tudo isto aos professores. O ano passado foi o primeiro ano que estas PAEB aconteceram. Este ano a coisa já deve estar mais oleada e deverá ocorrer sem tantos problemas e percalços derivados da falta de informação e comunicações vindas das DRE.
---------//---------
Foi também por essa altura que começou o famoso concurso para o cargo pomposo de Professor Titular. Acompanhei este processo relativamente perto e conheci algumas das muitas histórias de injustiça que à volta dele giraram. Professores que sempre se dedicaram à escola, a não terem os pontos necessários para pensarem sequer em candidatar-se e outros que, mesmo sendo os maiores baldas, chegaram ao cargo com o mínimo de esforço, só pelos anos de serviço. O que eu estava a substituir é hoje, obviamente, um Professor Titular...
---------//---------
Todas estas histórias aconteceram comigo em pouco mais de 5 meses que estive no mundo místico dos professores. Pelo que senti na pele, passei a respeitar ainda mais essa classe. Bons e maus profissionais, há-os em todo o lado. Não entendo o ataque constante do Ministério da Educação a uma classe que tanto se esforça para com poucos recursos tornar a aventura da aprendizagem em algo estimulante a miúdos na sua grande maioria contrariados por estarem na escola. O sistema educativo tem muitas falhas, se tem... para as corrigir são necessárias muitas reformas e muitas mudanças comportamentais. Mas os professores não deverão ser perseguidos como sendo os únicos culpados do actual estado da educação em Portugal, isso tenho eu a certeza!
---------//---------
P.S. - Desculpem-me os mais preguiçosos a lonjura deste post mas há muito que, face a tudo o que tem acontecido contra os professores, sinto a necessidade de escrever sobre esta minha experiência. Necessidade satisfeita, tão cedo não devo escrever outro destes!

1 comentário:

Moi disse...

Gracias por mais uma descri�o de caso para esclarecimento geral. Vou confirmando expectativas... E o reconhecimento � no que os outros utilizam de n�s. Gracias!