sexta-feira, março 14, 2008

Carlitos

Capa do disco "Carlitos" - para recordarem a música é aqui.
O meu irmão Carlos recebeu este disco, em tom de piada e recado, já não sei de quem (acho que foi da nossa avó, mas não sei precisar). Lembro-me que a música "E eu, que sou o Carlitos, até me deito cedo, até me porto bem..." fez parte das sonoridades ouvidas lá por casa quando eu era muito puto. Uns anos mais tarde o meu irmão confessou-me, a rir, que odiava de morte esse disco. Hoje, para fazer este post especialmente dedicado a ele, andei à procura na net por imagens e informações deste single em vinil. Descobri que foi lançado em 1983 e os seus intérpretes, hoje em dia, um par muito improvável: o cantor pimba Fernando Correia Marques (link não apropriado a cardíacos) e o cantor Henrique Feist.
Faz hoje 12 anos que o meu irmão morreu. Lembro-o sempre com muito carinho, as coisas más temos tendência para esquecer, não é verdade? Vantagem de quem por cá já não anda.
Com ele conheci e experimentei muita coisa que hoje percebo o quanto contribuiram e foram importantes para o que eu sou hoje. Na altura não liguei nenhuma.
Alguns exemplos: com ele conheci Patxi Andión (autor que ainda hoje gosto muito de ouvir - não sei se pela obra em si, se com isso sinto-me mais perto do meu irmão), Billy Idol e os Sex Pistols. Lembro-me de uma directa que fizemos juntos, eu não devia ter mais de 5 anos, quando ainda éramos uma família grande e vivíamos todos em Azeitão, onde ele passou a noite a ensinar-me a desenhar - nessa altura nós dividíamos o quarto no primeiro andar da casa. Lembro-me de mim e das minhas irmãs (os três mais novos de seis) odiarmos dormir a sesta, obrigados pela nossa mãe, e então ele vinha em nosso socorro. Levava-nos para as aulas de Educação Visual (onde uma professora simpática nos deixava ficar a assistir), ou então íamos brincar para o Circuito (um campo que havia em Azeitão com diversos obstáculos e provas de ginástica), ou ainda explorar casas em construção nos terrenos à volta. Depois, quando chegava a hora de supostamente acordarmos da sesta, voltávamos sorrateiramente para casa, fintávamos a mana mais velha entrando pela janela da sala e corríamos em pontas dos pés para o quarto . Ele dizia "esfreguem os olhos com força até ficarem encarnados para parecer que estiveram mesmo a dormir". Lembro-me de uma espécie de campismo selvagem por um dia, passeio que fizémos até à Serra da Arrábida em que fomos a pé de Azeitão e eu logo no início do caminho fiquei cansado. O meu irmão então levou-me o caminho todo às cavalitas, mais à mochila e tudo o resto. Podia estar aqui o dia todo a recordar as coisas boas. A última boa recordação que guardo dele foi um encontro ao acaso no jardim do Bonfim, já não vivíamos juntos há algum tempo. Eu estava nos meus 18, ele quase a fazer 25. Estava a andar de bicileta e ele pediu-me para dar uma volta nela. E ali esteve ele às voltas, como um puto, feliz por uns minutos. Depois entregou-me a bicicleta, despedimo-nos e ele levava o sorriso lindo que tinha estampado na cara.
Pouco tempo depois, estava eu em Tomar quando recebi por telefone a triste notícia.
Hoje todos o recordámos, cada um à sua maneira (pardinho, mãe melga e mana), mas com a certeza de que, onde quer que esteja, andará por aí algures a ver as asneiras que andamos a fazer.

9 comentários:

Paulo disse...

um abraço forte :/

Graphic_Diary disse...

Obrigado, já sinto a falta dos teus comentários por aqui... maldita avaliação de professores!
Um abraço para ti também
:-)

pinguim disse...

Quando não se é velho, e tu és muito novo ainda, recordam-se geralmente as perdas, mais naturais dos pais; é raro ouvir falar aqui nos blogs sobre a saudade de um irmão que partiu, mormente quando a diferença de idades não era assim tão grande...
Tu fazes isso com um misto de saudade e ternura comovente, meu amigo! Junto isso aos episódios culinários com a tua "Mãe melga", para imaginar uma familia muito unida e bem formada, o que também não é muito comum, nos nossos dias.
Abraço reforçado.

Graphic_Diary disse...

Amigo Pinguim
É isso mesmo, apesar de muito pouco convencional, somos uma família muito unida e que se ama muito.
As tuas palavras foram directo para o meu coração.
Obrigado e um abraço forte para ti também

Papoila disse...

Andava a ver se encontrava a música do Carlitos para recordá-la e também mostrá-la ao meu irmão mais novo e, acabei por encontrá-la aqui junto a este post ternurento e bem bonito para o seu mano.Um abraço forte e obrigada.

Angelo disse...

Por causa das tuas palavras, estive por segundos a ver o teu irmao a sorrir na tua bicicleta. E voces a esfregarem os olhos ate ficarem encarnados...

Belissimo!

E tens razao: o site do Correia Marques nao e aconselhado a cardiacos, nao senhor!

Graphic_Diary disse...

#Papoila e Angelo das Maravilhas
Obrigado pelas vossas palavras e por terem conhecido um pouco o que foi o meu irmão.
Um abraço a ambos e voltem sempre!

Paulo disse...

Vou ver se me redimo na próxima semana!

Ah, e não é só a avaliação de professores, mas todo o sistema que tira do sério e tempo para vir aqui e a outros blogues. E sinto falta disso...
Abraço

Anónimo disse...

olà xente! este disco traeme moi bons recordos. son fillo de galegos emigrado en suiza, pero a minha mae criouse en lisboa. tenho un tio que de aquelas traballaba para sony portugual e regalabame moitos discos de 7 pulgadas, e este foi un d'eles que moita gracia me facia por chamarme eu calros tamén. Tenho varios disco d'este tipo que saian de portugal, pero que levaban tamén unha version en italiano do mesmo cantante. raro, non? se queredes buscade "o visto un rospo/ eu vi um sapo" en youtube e xa veredes ao que me refiro. un saudo. carlos