quarta-feira, abril 09, 2008

Trois couleurs: Bleu - Liberté

De um post destes queridos juntos, sobre o Amor nos textos do Capítulo 13 da 1.ª Carta (ou Epístola) de S. Paulo aos Coríntios, chegou-me outra lembrança. Essa outra lembrança é a obra sublime do compositor Zbigniew Preisner para o filme Bleu (Liberdade) - um terço da trilogia francesa "Trois Couleurs", onde se juntam mais dois filmes, Blanc (Igualdade) e Rouge (Fraternidade), todos do realizador polaco Krzysztof Kieslowski (é com cada nome!).
Pouco me lembro da história dos três filmes. Neste Bleu temos Juliette Binoche, ainda muito nova, no papel de Julie, uma viúva de um maestro e compositor francês muito famoso. O marido foi vítima de um acidente de carro juntamente com a filha de ambos e só Julie sobrevive. Além de ter de lidar com o peso destas perdas e ter de andar com a sua vida para a frente, é-lhe pedido que termine a obra que havia sido encomendada ao marido - uma composição para coro e orquestra com o pomposo título "Canção para a Unificação da Europa". O resto da história, para quem não conhece, pode ser lida também aqui.
Esta obra é magnífica e perpassam trechos da mesma por todo o filme. Aqui neste vídeo, é a cena final de Bleu onde Julie reencontra a obra do marido e nós podemos ouvi-la na sua totalidade.
O som é magnífico, mas eu não sabia nada sobre o que cantavam. Foi esta grande querida (que tanta coisa me ensinou) que me explicou o que era. O coro canta, em grego, o texto da 1.ª Carta de São Paulo aos Coríntios 13. Através desta fonte trago-vos os textos em três versões: nos originais caracteres gregos em primeiro, depois nos latinos e por fim a tradução para o nosso português. Apreciem:

I Coríntios 13
1.
Εαν ταις γλώσσαις των ανθρώπων λαλω και των αγγέλων,
Ean tes glosses ton anthropon lalo, ke ton angelon,
Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos,

αγάπην δε μη εχω, γέγονα χαλκος ηχων η κύμβαλον αλαλάζον.
agapi de mi echo, jegona chalkos ichon i kimvalon alalazon.
se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine.

2.
και εαν εχω προφητείαν και ειδω τα μυστήρια πάντα
ke ean echo profitian, ke ido ta mistiria panda,
Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência,

ωστε ορη μεθιστάναι, αγάπην δε μη εχω, ουθέν ειμι.
oste ori methistane, agapin de mi echo, outhen imi.
ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou.

4.
Η αγάπη μακροθυμει, χρηστεύεται,
i agapi makrothimi, christefete,
O amor é paciente, o amor é prestável,

η αγάπη ου ζηλοι, ου περπερεύεται, ου φυσιουται,
i agapi ou zili, ou perperefete, ou fisioute,
não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso,

7.
πάντα στέγει, πάντα πιστεύει, πάντα ελπίζει, πάντα υπομένει.
panda stegi, panda pistevi, panda elpizi, panda ipomeni.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

8.
Η αγάπη ουδέποτε πίπτει. ειτε δε προφητειαι, καταργηθήσονται.
i agapi oudepote pipti. ite de profitie, katargithisonte.
O amor jamais passará. As profecias terão o seu fim,

ειτε γλωσσαι, παύσονται. ειτε γνωσις, καταργηθήσεται.
ite glosse, pafsonte. ite gnosis, katargithisete.
o dom das línguas terminará e a ciência vai ser inútil.

13.
νυνι δε μένει πίστις, ελπίς, αγάπη, τα τρία ταυτα.
nini de meni pistis, elpis, agapi, ta tria tauta.
Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor;

μείζων δε τούτων η αγάπη.
mizon de touton i agapi.
mas a maior de todas é o amor.

10 comentários:

pinguim disse...

Maravilhoso filme, talvez o melhor da trilogia, com uma Binoche fabulosa, de beleza e como actriz; a música é excelente, como todas as bandas sonoras deste realizador; a minha preferida, no entanto é a do filme "La double vie de Véronique".
Abraço.

aunidadeimpropria disse...

Gostei do teu domínio do grego clássico, mas os tradutores são aquilo que são...
As melhoras.
Beijo,
A.

Arsène Lupin disse...

Lembro-me de ouvir-mos isto até à exaustão. Se bem me lembro os cd's eram da Ni, e estiveram lá por casa mais de um ano. Mas o meu preferido continua a ser o "Rouge".

Beijinhos

Paulo disse...

desculpa este imenso atraso...
obrigado pela referência, pelo comentário que nos deixaste e pela partilha que aqui fazes. Nem eu sabia que cantavam em grego! E logo este excerto. Arrepio-me! Novamente.

X disse...

Lindo, tão verdadeiro e tantas vezes esquecido!

Nicolau disse...

Este som, magnífico, tocava incessantemente num quarto com paredes amarelecidas que davam forma ao fumo acre do tabaco, e ao fundo um cortinado de lã às riscas. Hoje, mais do que a história do filme, ou a tradução deste excerto, consegui regressar àquele quarto, aqui onde estou, entre paredes brancas, sem fumo, quase que senti os cortinados na polpa dos dedos. E fui feliz.

Anónimo disse...

Não largues as drogas que não é preciso...

mimulus disse...

Belíssimo e verdadeiro.
Tantos gravaram em forma de canção e tantos séculos tem isso, mas essa forma é a mais bela
Obrigada!

Rui disse...

Aquilo de que realmente se gosta, por vezes não merece ser comentado.
Não pelo desperdício das palavras que comentam mas pelo desperdício de atenção que o comentário pode ocasionar.
já comentei demais.
Um abraço!
Rui V.

Graphic_Diary disse...

Há muito que estou em falta para com todos os comentários a este post... tempus fugit!
Obrigado a todos pelas vossas reacções
Todas elas me tocaram de uma maneira ou de outra... até a do já habitual irónico de serviço e Pardinho suspeito do costume ( tradução/retroversão e texto original não são da minha responsabilidade!)...
Beijos e abraços para todos