quinta-feira, abril 10, 2014

Começar

Começar. É sempre esse o problema: começar, começar algo, começar por onde, começar para quê, começar porquê, começar para quem?
A quem é que pode interessar o que tenho para dizer?
O que eu tenho para dizer é importante?
O que é que eu posso dizer que não tenha já sido pensado, dito e escrito?

Chego facilmente a este impasse e detenho-me… não vale a pena seguir qualquer caminho. Já todos eles foram trilhados anteriormente e aquele a que me proponho começar não chega a iniciar. Protelo, procrastino, adio, alheio-me, afasto-me, deixo-me estar quieto, ainda que frustrado, ainda que inquieto.

Dentro de mim há muita coisa, muita informação, muita vontade de expressão, muita ânsia de vomitar visceralmente o que já não me cabe nas entranhas. Sinto-me muito cheio e, contraditoriamente e por causa dessa incapacidade hermética, muito vazio. É tão grande o vazio onde me encontro, um abismo cheio de coisas minhas que teimam em não me deixar, em não sair de mim. O que fazer com as coisas minhas?

Rebenta a bolha, fala, partilha, expande-te, exprime-te, sai da tua concha, dá-te a conhecer, abre-te ao outro – digo-o, como um mantra, a mim mesmo e ouço-o com frequência vindo das bocas dos outros.

Respiro fundo e proponho-me de novo ao caminho. Começo no começo, uma vez mais, na tentativa de partilhar, de exprimir as minhas coisas. Começo um esboço, traço um desenho a lápis para logo o riscar por cima; começo um texto na minha cabeça para logo o apagar; começo para de imediato cessar. Sou uma manta de começos retalhados.

Talvez não devesse importar-me com o chegar a um destino específico – afinal o que importa é o caminho, dizem – mas talvez devesse importar-me tão-somente com o começo, começar algo e seguir em frente. Depois logo vejo onde chego.

Mas por enquanto cesso.

1 comentário:

José Luiz Moreira disse...

Há sempre alguém a quem interessa o que tens a dizer, não importa o quantas vezes já o tenhas dito, pensado, escrito, desenhado, fotografado... Não importa que o digas em longas frases entremeadas de imensos silêncios, em manchas de cor ou rabisco de tinta de esferográfica. O que importa é que o digas. Há sempre alguém que se interessa. <3